quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

The Post e os segredos de Polichinelo...

Ontem fui ao cinema com minha esposa, aqui em Macaé...Fomos assistir o filme The Post - A guerra secreta...

Primeiro e antes de tudo: Não perca seu tempo! Não tenha medo de eu estragar seu filme, não há o que estragar mais ali...

Claro que as expectativas sobre Meryl Streep e Hanks (Tom) e os demais atores de apoio foram confirmadas...

Mas tem Meryl Streep e Tom Hanks e todos os demais em muitos outro títulos melhores...

O filme em questão é uma mistura (péssima) de auto-elogio com viés documentário, o que, paradoxalmente, torna a história inacreditável...


O subtítulo (guerra secreta) traz em si um duplo sentido manjadíssimo, que tanto se refere aos "segredos" revelados, após terem sido subtraídos de um arquivo de uma consultora (RAND Corporation) do Departamento de Defesa...

Os 47 volumes foram o resultado de um estudo encomendado pelo então titular do Departamento, Robert Mcnamara...

Nem vou entrar no debate subjacente sobre a ética de publicar algo subtraído dos arquivos governamentais, e os chamados delatores de hoje, com Assange e Snowden...fica para próxima...

O filme quer nos fazer crer que havia um dilema entre resistir bravamente a pressão de Nixon e da Casa Branca para não publicar o conteúdo que revelava o que boa parta da sociedade dos EUA já sabia muito antes do início da década de 70: 

Todos os motivos para os EUA estarem no Vietnam não correspondiam a realidade, pelo menos não a realidade que era forjada para a audiência...

O jornal, no alto de sua arrogância e cinismo, conta sua versão no filme:

A sociedade e a mídia foram enganados, um após outro presidente, desde o fim da II Guerra...

Piada, não é mesmo? Trata os eleitores como idiotas e como se a própria mídia não fizesse parte desse grande pacto de criação do aparato ideológico que possibilitava a audiência engolir qualquer mentira...

Como todo filme, há os momentos cruciais, ou seja, que revelam a essência do filme, mesmo sem que os diretores e atores se deem conta disso...


O primeiro deles é a conversa da Katherine Graham, herdeira do jornal, vivida por Streep com o já ex-Secretário de Defesa, Mcnamara, defenestrado após o vazamento estampar as páginas do New York Times, logo depois proibido pela Justiça estadunidense de continuar a publicação dos documentos ultra-secretos...

Em determinado momento eles se queixam mutuamente da "quebra" de confiança, do acordo tácito entre poderosos do governo e mídia, que promiscuamente trocavam confidências e lealdade aos interesses comuns...

Katherine (Streep) lhe diz: "Você sabia que não podíamos vencer (a guerra), viu a mim e outros amigos mandando seus filhos para uma guerra perdida"...

Pausa para uma lágrima contida (puta que nos pariu)...

Aqui o nó da questão: 

De tanto mentir e suportar a mentira para justificar a ida dos EUA a guerra na Indochina, dentro do roteiro da Guerra Fria já traçado e estabelecido no ânimo da sociedade de lá, a dona do jornal abandona a realidade para cobrar ao amigo por uma mentira que ela ajudou a contar, porque não é plausível imaginar que a dona de um jornal ainda nutrisse alguma esperança de que havia motivos justificáveis e honrados para a presença dos EUA na região em 1971/72...

O Mcnamara perdeu a chance de devolver a cobrança recheada de hipocrisia, até porque essa fala nunca estaria em um filme dedicado a lustrar a imagem da mídia com um saudosismo mequetrefe...

Se fosse um filme honesto, poderia dizer ele: 

"Uai, eu posso inventar um monte de motivos para irmos a guerra, isso aplacará sua consciência?" 
Ou:
"Depois de quase uma década de conflito, com o envio massivo de tropas, apesar dos presidentes insistirem em dizer o contrário, você ainda esperava uma justificativa "moral e honrada" para a intervenção?"



O outro momento é quando o editor chefe vivido por Hanks comemora com a dona do jornal (Streep), dizendo: "Temos que botar esse pessoal nos eixos"...

Fica claro ali que "botar nos eixos" era o amadurecimento da noção de que o poder midiático estava acima do poder do voto, apesar de professarem a (falsa) crença de que estivessem a serviço dos governados...


A canalhice não poderia ficar mais explícita...embora possa passar despercebida...A arrogância esbarra no horror pessoal que a elite representada pela dona do Post (os Graham) e os rivais do NYT (os Rosenthal) mantinham por Nixon e sua equipe, os quais consideravam selvagens...

De fato, Nixon pelo que se sabe não é flor que se cheirasse, mas ele detinha um mandato para ser quem é, mas e os donos dos jornais (da mídia), de onde vêm sua "legitimidade" para decidirem quem serve e quem não serve?

Nesses dois momentos se cristaliza o paradoxal divórcio entre mídia e poder político nos EUA, que depois se refletiu pelo mundo, com ritmo acelerado pelas alterações do mercado editorial e o assédio do setor financeiro e oligopólios sobre as empresa familiares de mídia (fato retratado no também falso dilema entre o interesse dos investidores da abertura do capital do Washington Post e a linha editorial)...

A mídia deixou de ser um meio para alcançar e manter poder para virar um fim em si mesma, ora atuando como partido político, ora como polícia, mas sempre reivindicando uma tal de liberdade de imprensa que nada mais é que um bill de impunidade para agir como se estivesse alheia a luta política da qual faz parte e se beneficia...

Nixon perdeu, como sabemos, a disputa com o Post, que lhe enfiou o Watergarte no rabo...

No entanto, olhando com a distância que o tempo permite, ainda que as guerras atuais por petróleo e as mentiras contadas pela mídia pró-mercado (existe alguma contra?) nos levem a crer que tudo se repete, o fato é que naquela pequena vitória do jornal contra um presidente é um marco...

Toda a história da política mundial, do relacionamento entre instituições, da própria concepção e natureza da mídia comercial como um todo e sua relação com as sociedades nas quais se inserem, tudo isso mudou desde então e nos trouxe até aqui...na farsa-jato, nos tribunais de exceção pela planície, no conluio entre mídia escrota local e o poder "ilustrado" do neto da cachorra de guarus...

Antes era guerra fria, depois contra drogas, terror e agora corrupção...

Dá para antecipar um novo roteiro, onde um cínico dono de mídia comercial cobra de um juiz do stf dizendo: "pô, você nos traiu, a intenção não era limpar o país, mas entregá-lo aos EUA?"....

Meryl Streep na pele de Katherine Graham estava dizendo em alto e bom som, e só não ouviu quem não quis:

"Não lutamos pelo direito de dizer a verdade, queremos o monopólio do direito de dizer que a versão é mais importante que ela (a verdade)"...

Resumindo: esse filme você já vê todo dia, então, não gaste sua grana com essa merda!


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Sobre crivellas, pezões, tuiutis e outros Carnavais...

Vamos falar em alto e bom som:

Nenhuma cidade do mundo, muito menos a que já vive uma situação complexa no aspecto de segurança pública, conseguiria "planejar" um policiamento para conter uma multidão de mais de 6 milhões de pessoas alimentadas a bebida e outras drogas concentradas para facilitar a ação de ladrões oportunistas (os chamados "arrastões")...

Não existe a menor condição para tanto, apesar da mídia cretina e escrota martelar nessa tecla o dia inteiro durante os dias da folia...

As estatísticas sequer foram computadas, mas a histeria sobre a violência segue a pauta já pré-determinada...

Não que eu queira jogar panos quentes...ao contrário...

Só que o aparente "caos" da segurança pública não é um caos de verdade, é um projeto que segue à risca o planejado...
E por que tanta gritaria?

Ora, porra, porque o pessoal da zona sul foi atacado...mas não é só isso...

O roubo de rua, ou roubo de transeunte é modalidade corriqueira pelas franjas pobres da cidade, em toda a chamada zona metropolitana, que vai desde São Gonçalo (alguns dizem que agora vai desde Marambaia, já em Itaboraí, nos contornos da conurbação) até Itaguaí, de um lado, e na outra ponta, os pés da serra, já na Baixada Fluminense...

Porém esse flagelo diário não chama a atenção, ao menos, não como o roubo de uma velhinha em Ipanema...

Há outro componente na histeria coletiva: O fato do prefeito ser quem é, ou seja, marcelo crivella...

Esqueçam o fundamentalismo "cultural" ou religioso de crivella...

Ele não é o primeiro, nem será o último a misturar religião com política, e só incomoda aqueles hipócritas que nem mais conseguem enxergar o domínio da Igreja Católica em nossas vidas...

Uai, a cidade em si (o Rio de Janeiro) tem um enorme símbolo católico (O Redentor) e não são poucos os feriados dedicados a fé católica...

Quem critica o assédio evangélico de crivella sobre a administração pública e o Estado deveria reivindicar o fim da semana santa, por exemplo...

crivella já aprendeu que não se briga com a grana, e nem se desfavorece quem a tem...

Tanto assim é que as peças de propaganda do Carnaval, onde se lia as (logo)marcas de Prefeitura e Estado ostentavam uma marca de cerveja...

E assim como todos os demais prefeitos e governadores, crivella e pezão usaram tudo o que podiam dos parcos recursos públicos em segurança, saúde e outras áreas para bancar uma festa de rua que têm vários grupos econômicos que lucram bastante, sem que ofereçam contrapartida em impostos que justifiquem tanto gasto público!

Sim, o festivo e chamado "independente" circuito de rua do Carnaval do Rio é um negócio lucrativo, que só deixa prejuízo, como sempre, para os cofres públicos...

O que entra de imposto não compensa, e nunca compensará os gastos feitos, falando só em números, porque nessa conta não entram vidas de mortos e feridos, que não podem ser medidas ou quantificadas...

O que fez o Rio virar o centro das pautas das editorias das mídias comerciais é o ataque diuturno que crivella é alvo...claro que sobra para o pezão...mas ele não é o motivo principal, é só subsidiário...

É mais ou menos como a predileção da farsa jato pelo Rio, enquanto em SP se rouba desde o buraco do metrô até a merenda das crianças...mas ninguém sabe, ninguém viu...

Soma aí o fato de crivella ter sido um dos principais aliados do PT enquanto era Senador, assim como cabral e outros tantos...


Outro ponto engraçado é o Carnaval S/A da LIESA...

Entidade "respeitabilíssima", tocada pela escória do crime organizado, mas que tem na sua face institucional importante referência de interlocução com a chamada "sociedade de bem"...

Durante todo o ano, a gente na polícia chuta a porta dos bingos clandestinos, atua sob a frequente desconfiança das corregedorias, mas no Carnaval fazemos parte do esforço público para a festa maior da chamada "contravenção", com direito até a projeção de unidade polícia civil e juizado (de menores e JECRIM) nas instalações do Sambódromo (não sei se nesse ano esse aparato se repetiu)...

Pois é...o crime e o creme...

Foi justamente nessa festa híbrida (foras-da-lei e agentes da lei) que surgiu um protesto isolado, em uma das frestas na estrutura do produto de exportação made in LIESA...

Sôfregos por alguma forma de manifestação genuinamente popular contra os golpistas, parte da esquerda quase celebrou o desfile da Tuiuti como o início do assalto ao Palácio de Inverno...

E como os imbecis que esperavam no resultado do julgamento de Lula alguma redenção, viram o protesto ser sublimado pelo desfile-coxinha da escola de Nilópolis, antro do clã David, aqueles que tentaram emplacar o superintendente da pf no RJ, mas ficaram só com a administração dos presídios....


Bom, e como no caso do processo ilegal contra Lula, quem torceu legitimou o resultado, incluindo ele, Lula...

Na avenida, assim como nos tribunais, os donos do poder nem ousaram alguma sutileza em permitir algum resultado diferente do encomendado...

Ô skindô, skindô...

Alô povão, agora é sério...olha a naba do golpe entrando mais aí, gente, chora cavaco!

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

O monopólio do uso da força estatal cede à disputa pelo uso da violência pelo Estado!

Durante nossa rotina diária vários eventos passam despercebidos...Se olhados com atenção podem nos dar valorosas dicas sobre o estado de coisas que nos cercam, e em algumas vezes, nos incomodam...

É preciso refletir...

O uso continuo da expressão "caos da segurança pública" é algo que me preocupa pelos motivos óbvios...

Todos os dias somos inundados com informações de qualidade sempre duvidosa, que têm o objetivo de fabricar consensos que servirão como plataforma para sustentação das políticas públicas que são, ao mesmo tempo, causa e efeitos dos problemas que dizem querer combater...já chamei isso em outros textos de Narrativas Circulares...

Sim, o maior responsável pela violência é o Estado (lato sensu)...

Não se assuste...

A ideia primordial de Estado, nos estertores da criação desse ente político de organização das sociedades, passou primeiro pela demanda principal das pessoas daquele época até hoje: 

Segurança...

E desde então os Estados considerados mais organizados, que proporcionam aquilo que entendemos por melhores condições de vida e longevidade, são coincidentemente os que mantêm os níveis de conflitos violentos e infrações penais dentro de limites, digamos, aceitáveis...

Há um dado irrefutável: 

Não é pobreza que gera violência (embora em alguns casos específicos a privação pode levar a algumas infrações penais de baixo impacto e letalidade, como pequenos furtos, chamados de famélicos, etc)...

Então temos: maior igualdade entre as classes, maior estabilidade social e política, menor violência!

Assim, os países mais desiguais do mundo, incluindo aí o mais desigual entre os mais ricos, os EUA, ostentam índices de violência sempre superiores a dos países menos desiguais...

Não estamos falando de violência proporcionada por conflitos geopolíticos/étnicos e outros conhecidos como guerras, sejam as simétricas, com emprego de forças regulares, sejam as conhecidas como assimétricas, quando forças regulares enfrentam contingentes civis armados, como no Iraque, Afeganistão, etc (que são outras manifestações da violência e desigualdade ENTRE países e suas sociedades, mas que não trataremos aqui hoje)...

Os números desses confllitos revelam que mesmo nesses contextos de combate, as mortes decorrentes podem ficar abaixo das chamadas taxas de criminalidade urbana...

E por que desigualdade (e não pobreza) gera violência urbana?

Não tenho a pretensão de esgotar o tema, e nem poderia, por faltar-me instrumentos analíticos, mas tenho palpites...

Vamos a eles:

- Desigualdade: a mãe da violência urbana e da corrupção!

Países ou sociedades desiguais são o resultado da estruturação do capitalismo ao redor do planeta...De forma simplista, sem precariedade advinda da desigualdade não há capitalismo...

Não somos menos eficientes (mais desiguais) porque não sabemos nos portar como capitalistas, mas sim porque a forma de implantação do capitalismo obedece a uma lógica sempre igual e perversa para que poucos tenham quase tudo, muitos terão que ficar com quase nada!

Sendo o Estado o palco de encerramento e criação das expectativas e demandas de todas as classes sociais, que são desiguais umas em relação às outras, mas também entre si mesmas, a ação estatal irá obedecer, salvo raríssimas exceções, uma hierarquia de prioridades...

Aí reside uma das pernas ou variáveis de nossa equação...

Teremos áreas onde haverá uma série de serviços e ordem pública, e outras degradadas, abandonadas à própria sorte, chamadas de zonas de anomia (sem lei)...

Isso não quer dizer que as áreas mais ricas não sejam propensas à desordem urbana, nada disso...
Porém, nas áreas onde moram os mais ricos, até essa desordem conta com o beneplácito do Estado, com alguma organização, e principalmente, com o apoio e consenso ideológico dos habitantes das cidades...

Um exemplo:

As boates, os bares e ou festas de jovens de classes média e alta que trazem toda sorte de infortúnio e impactos de vizinhança (ruído, complicações de tráfego, violência, etc), mas recebem das autoridades (na maioria esmagadora dos casos) um tratamento complacente, e em alguns casos, de cumplicidade, sob o argumento de incremento da movimentação financeira dessas áreas, naquilo que chamam eufemisticamente de "revitalização" ou "reurbanização"...

Nesses eventos há consumo de entorpecentes em escalas industriais...Há veiculação de músicas com apologia às drogas, violência contra mulher, e incitação de outros abusos de gênero e étnicos...

Já nos chamados eventos das zonas mais carentes, sendo o mais combatido deles os bailes "funks", não encontram nas autoridades (e nem na sociedade) a mesma receptividade...

Há, como nas zonas mais ricas da cidade, os mesmos problemas, e talvez a única diferença seja que naqueles locais pobres (favelas) sejam os varejistas do tráfico que patrocinem diretamente o aumento da compra de drogas ilegais, enquanto nas zonais mais ricas, esse incentivo é dado pelo dinheiro público, que bancam tais eventos sob a chancela, como dissemos, de empresários diretamente interessados (lojistas e setor hoteleiro) e da sociedade, que às vezes filia a tais interesses sem perceber, ou com percepção manipulada pela mídia...

É uma ação que eu chamo de esquizofrenia estatal e social...

De um lado usam todo o aparato bélico para reprimir a venda de drogas nos morros, e de outro usam o dinheiro público para bancar eventos onde a venda de drogas crescerá exponencialmente, uma vez que quanto mais atividade econômica e quanto mais rica a clientela maior o consumo...

Ou seja, uma ação pautada pelo viés de classe, tanto as classes do empresário e do traficante de varejo, quanto as classes dos frequentadores e consumidores de drogas, enfim, a classe da vizinhança envolvida...

Essa ação de classe desemboca em um paradoxo de moralidade...

Como combater algo que depois se incentiva o consumo?

Claro que não estou aqui a fazer uma crítica "moralista" do uso e consumo de drogas, sobre isso já falamos, e posso resumir que sou totalmente contra as políticas proibicionistas atuais, que nada têm a ver com o controle social e sanitário do uso de drogas, que é TOTALMENTE diferente...

Sociedades têm o direito-dever de regular o consumo de qualquer coisa...apenas os parâmetros para políticas de prevenção, fiscalização e controle devem obedecer a critérios lógicos, e não essa irracionalidade de proibição por si mesma, sem qualquer resultado eficiente...

Bem, é eficiente para quem lucra com a proibição, é verdade...

E esse é o cerne do assunto aqui tratado...

O aumento dramático da letalidade violenta nos países como o nosso não é uma falha, um erro, uma crise...é um projeto...um plano...

Asim como o capitalismo e seus donos têm por missão manter as classes mais favorecidas no mesmo patamar onde se encontram, evitando qualquer mobilidade social que altere a hierarquia dessas classes, ele se utiliza da violência urbana (e o discurso do enfrentamento da violência) como instrumento político de dissuasão de classe...

Drogas, armas e outros insumos relacionados a atividade global do estão presentes em todos os países do globo, mormente os mais industrializados...

As atividades chamadas ilegais (tráfico de drogas, a principal) funcionam tais como outras atividades econômicas chamadas de legais, onde os países mais pobres (e desiguais) massacram suas populações para garantir a venda de produtos cada vez mais desvalorizados na rede mundial de trocas comerciais (as chamadas commodities), onde aos países ricos reserva-se o direito de fabricar e controlar os produtos mais caros e tecnologicamente mais avançados, o que leva a uma série de violências contra trabalhadores e trabalhadores, e inclusive crianças (trabalho escravo, imigração ilegal, mercado de gente, violação de direitos trabalhistas e sociais de toda sorte, etc)...

Isso explica, em parte, porque os países ricos são os maiores consumidores de drogas ilegais, e nem por isso sofram com a violência urbana que esse comércio leva aos países mais pobres...

Como nos sistemas econômicos, são eles que concentram o bônus do capitalismo (bens, conforto, tecnologia e serviços) e deixam aos outros países a pobreza/desigualdade, escassez/esgotamento de recursos, problemas ambientais, sociais, etc...

Lembra da diferença (desigualdade) do tratamento dos eventos dos bairros ricos e pobres, e da violência nos morros, totalmente diferente dos bares e lugares ricos da cidade, onde se vende e consome drogas sem qualquer violência?

A mesma lógica se estabelece aqui...

Os países ricos ficam com os "lucros" da atividade ilegal, nesse caso (dos países) cresce a venda de armas, insumos de segurança e suas "tecnologias", bem como da venda das drogas em si mesma, que também gera um aumento de produção e circulação de riqueza, como na indústria farmacêutica, por exemplo...

Os países pobres exportam drogas, e consomem armas, vidas, etc...Importam o aumento da violência!

Já no caso da observação da diferença entre as zonas ricas e pobres da cidades, os bairros ricos e os moradores mais ricos das cidades ficam com o aumento de atividade econômica proporcionados pelos eventos e rede de serviços onde a venda de drogas é componente importante, junto com o consumo de outros itens legalizados (álcool, principalmente)...

Os pobres ficam com os problemas do varejo das drogas (violência policial, mortes, etc)...


Junto com a violência, a desigualdade traz outro câncer aos tecidos sociais: A corrupção que deriva de uma noção básica:

Quanto mais desigual, maior será a fraqueza da ação estatal repressora da infração penal, que se curvará sempre a sua natureza seletiva, em outras palavras:

A lei e sua aplicação é sempre muito mais dura e severa aos mais pobres, o que leva a uma corrida óbvia: 

Quanto mais dinheiro, quanto maior sucesso na empreitada criminosa, mais chances de sair ileso, alimentando assim um dos principais fatores que levam à infrações penais, a expectativa (quase certeza para os mais ricos) senão de impunidade, mas de um tratamento diferente quando apanhados pela persecução estatal...

E sabemos que quanto mais "fraca" a intervenção estatal, mais violenta ela tende a ficar!

Em países menos desiguais essa noção é mais reduzida, embora persistam essa noção intrínseca à hierarquia de classes capitalista onde quer que ele se instale...

Hoje cedo assisti pela TV uma entrevista de uma moça que diz representar os blocos carnavalescos da capital do RJ...

Certamente nunca será dito que ela representa interesses muito mais amplos que somente o descompromisso lúdico momesco...

As pessoas, por certo, têm direito às festas e ao lazer, sendo  tarefa do poder público garantir a segurança desses eventos...

O problema é, novamente, a seletividade da alocação dos recursos públicos, e mais, a narrativa que desobriga os organizadores de qualquer responsabilidade, onde ao público é sonegada a informação de que há enormes ganhos econômicos com tais eventos, sem que haja uma contrapartida desses conglomerados empresariais aos impactos causados nas já combalidas estruturas urbanas de serviços públicos (hospitais, transportes, segurança, etc.)...

Se considerarmos o discurso atual de "crise fiscal", o empenho de orçamentos públicos nesses eventos é uma imoralidade...

Mas a lógica da desigualdade prevalece intacta...


- Sabe com quem está falando e eu sou trabalhador: A classificação e suas hierarquias das punições!

Esse estado de coisas leva a construção de justificativas ideológicas de classes desiguais uma em relação das outras, e dentro das mesmas classes também...

Como a mensagem é quanto mais dinheiro mais poder de "convencimento" para afastar a punição do Estado ou a repressão a determinadas "culturas e costumes", cria-se uma estranha simbiose...

As forças estatais percebem quase que instintivamente que devem agir de forma diferente com as diferentes classes sociais, mais especificamente com os indivíduos social e economicamente distintos entre si...

Por isso não se vê a invasão violenta de territórios mais ricos da cidade...assim como há uma série de cuidados e protocolos para lidar com moradores de bairros mais ricos...

Mesmo dentro dos bairros pobres, as forças de segurança procuram estabelecer uma precária hierarquia, diferenciando aquilo que chamam de "vagabundo" e "trabalhador" ...

Nas zonas ricas é o popular "sabe com quem está falando?"

Desse modo, temos um intrincado sistema de retroalimentação de causas e efeitos, onde em determinado ponto fica quase que impossível aos moradores das cidades entenderem como são controlados pelo permanente senso de "urgência" e "crise",...



- O dinheiro como fim em si mesmo, a proibição e exclusão de territórios, e a militarização da segurança urbana como instrumentos da ausência de regulação do Estado ou: 
Quando os meios viram fins em si e justificam por si...

A frase, os fins justificam os meios, é antiga e esconde, geralmente, um problema: 

O que leva a termos que aceitar que certos meios sejam usados para fins que sempre trarão efeitos desiguais, eles mesmos destinados a aumentar a desigualdade e a crise que dizem combater?

No aspecto do mercado financeiro e da Economia esses falsos dilemas são comumente usados como chantagem para sequestrar direitos em nome dos interesses escusos dos donos do capital...

Em segurança, como veremos, a lógica é idêntica, e não é exagero dizer que a globalização do crime é efeito direto da globalização financeira, a ponto de não podermos mais divisar onde começa o capitalismo global legal e o ilegal...

Os bancos e os paraísos fiscais estão aí para confirmar o que digo...


No campo da segurança pública há um fenômeno aparentemente paradoxal (provaremos que não há paradoxo, enfim) chamado de militarização da segurança pública...e a ideia de exclusão territorial associada às proibições de alguns comportamentos conhecidos como de "auto-lesão"...

Qual o sentido de proibir o consumo de algo que só traz consequências para aquele que consome?

Alguns dirão: Olha, o consumo de drogas têm consequências nos sistemas públicos de saúde (com tratamentos decorrentes do uso direto ou de fatos indiretos, como acidentes ou crimes provocados por pessoas sob efeitos de drogas...

Ok, mas essa lógica não se aplica a álcool e cigarro?

Outros insistirão: O uso de drogas aumenta a violência...

Pode ser, mas aqui novamente a pergunta, e o álcool ou fármacos legais?

Os sistemas constitucionais dos países menos desiguais entenderam que têm que ao mesmo tempo que fiscalizam e controla o uso/abuso de drogas, tratando o tema como de saúde pública, abandonam a proibição inútil, já que está comprovado que a proibição por si não inibe o consumo...

Mas por que então insistir na proibição como fim em si, já que não funciona como meio eficaz de controle do uso/abuso e seus efeitos no tecido social?

Veremos a seguir, dentro da lógica da transformação de outros meios em fins em si mesmos...



Os contingentes militares são, via de regra, destinados (na maioria dos chamados países democráticos) a conflitos de natureza externa e geopolítica, reservando-se o uso interno a situações limite onde as próprias ordens constitucionais (e o próprio Estado) estejam sob risco de falência...

Na História, o uso desses contingentes com maior ou menos sucesso foram observados com resultados diferentes, onde houve o retorno a ordem que se pretendia conservar ou a substituição desse ordem por outra (revoluções e golpes de estados)...

Cientes do perigo do uso indiscriminado desses forças militares, os países que conseguiram maior estabilidade constitucional, dentro de ambientes menos desiguais (como já mencionamos), afastam o quanto podem a contaminação das forças policiais pelas de natureza militar...

Aqui outro fato:

Países mais estáveis e menos desiguais têm forças policiais mais distantes da militarização, enquanto países mais conturbados e desiguais aproximam cada vez mais a noção de combate a criminalidade por meios militarizados...

Os EUA aparecem de novo como exemplo...Não à toa, engolimos tudo que eles nos empurram!

Desde a sangrenta Secessão (onde o estamento manteve sua posição, não sem antes aniquilar as forças militares rebeldes que desejam a sua alteração - a do estamento), os Estados Unidos têm uma forte regulamentação que proíbe o emprego de dispositivos militares contra seus cidadãos, seja dentro ou fora dos EUA...

Como epicentro do capital global, ou melhor dizendo, como locomotiva do mundo globalizado, os EUA são o país mais desigual entre os mais ricos...

Não por coincidência, nasce ali cada ideia de "guerra", seja ao terror, seja às drogas...

A "guerra" é o argumento singular para escamotear (agora não mais escamoteada) a escalada militarizante das forças policiais, modelo exportado para cada "satélite" dos EUA...

Cada país acomodou essa exportação de uma forma...

No entanto, a lógica da desigualdade prevaleceu: País menos desigual, menos militarização, país mais desigual, mais militarização...como o nosso!


Se a partir dos EUA e de seu poderoso mercado vêm a noção básica de que o dinheiro deixou de ser meio de troca (valor) para ser fim (e valor) em si, com todas as consequências sociais e políticas daí derivadas, também veio de lá uma perigosa tática, que chegou ao seu ápice em Bush Jr, mas nasceu lá atrás com a necessidade de criminalizar os movimentos políticos de contestação nos EUA...

Na chamada guerra ao terror, e antes na guerra contra as drogas cada vez mais as forças policiais foram empurradas para o colo dos militares, chegando ao ápice da violação do princípio constitucional que era caríssimo a eles (o não uso de militares contra estadunidenses, dentro ou fora dos EUA)...

Ao mesmo tempo, houve outra escalada que pode ser considerada siamesa dessa política: a privatização/terceirizaçãobdos estamentos militares nos EUA, que por consequência óbvia, fomentaram a privatização do uso da força policial do Estado e dos sistemas penitenciários de lá...

Na crise do Furacão Katrina foi a empresa Blackwater que foi usada para conter a revolta dos moradores pobres, confinados em estádios e jogados na barbárie e falta de assistência governamental...

A citada empresa é a maior empresa de mercenários da atualidade, nascida a partir de um campo de treinamento do FBI e da CIA, que cresceu vertiginosamente nas administrações públicas do complexo petróleo-militar-neoliberal...

Com a escalada militar da era Bush, a empresa angariou uma série de contratos de "segurança privada" dos órgãos do Departamento de Estado no Iraque e em outras zonas de conflito, sob a justificativa de que tal medida liberaria soldados regulares para o esforço de guerra...

Tudo mentira, que foi desvendada com o Massacre de Falujah, quando as forças mercenárias privadas não só participaram de uma ação militar contra civis iraquianos na cidade de Falujah (em vingança contra a morte de funcionários da empresa por insurgentes), como assumiu o controle militar sobre as forças regulares...

Um parêntese: Essa ideia foi importada por nós e adaptada, onde temos aqui um precário e improvisado uso de forças privadas de segurança (que somam mais gente que todas as polícias do Brasil), e também com a instituição de programas privatizantes de forças policiais para proteção de determinadas áreas (Lapa Presente, Aterro Presente, no Rio de Janeiro),  e por fim, com o emprego inconstitucional das guardas municipais como forças de policiamento!

Foi a primeira vez desde o fim do Século XIX (Guerra de Secessão) que forças mercenárias militares foram usadas contra cidadãos dos EUA no seu país de origem...

Simultaneamente tais forças receberam o mandato para matar, sequestrar e prender sem justa causa qualquer estadunidense que representasse "ameaça a segurança nacional"...


Em 1980, havia pouco mais de 80 equipes SWAT (forças de intervenções táticas com forte viés militar, que originou nossa febre pelo BOPE e outros times de operações especiai no Brasil) em todas as cidades dos EUA, enquanto em 2000 o número explodiu para mais de 800...

Filmes sobre SWAT também encontraram similaridade no Brasil e suas "tropas de elite"...

No mesmo período (1980-2000) o número de presos saltou de 340 mil para 2 milhões nos EUA...

O Brasil segue a trilha com quase 1 milhão de presos, com uma característica toda nossa: A maioria não está presa por sentença!

Os "excedentes" militares resultantes das diversas guerras não podia ficar estagnado, e foi justamente nas zonas urbanas que foram aproveitados...assim como os excedentes econômicos...!

Como na questão da riqueza (do dinheiro) e do mercado com fim em si mesmos que justificam sua existência dizendo-se a solução para acabar com a desigualdade que eles mesmos produzem, a militarização e a escalada de prisões e violência policial para o combate a criminalidade urbana são fins em si mesmos, que dizem combater aquilo que ajudam a produzir...

Como na questão financeira vemos que o excedente tem que ir para algum lugar...

A enxurrada de capitais para girar nas roletas dos bordeis dos juros altos nos países pobres, junto com a compra de ativos estatais, vem junto com a implantação de projetos de segurança que priorizem a visão militar, que absorvem os excedentes militares dos EUA e seus sócios...

Os negócios do ramo da segurança também oferecem milhões de chances de lucro, desde o fornecimento de comida para presos, até na compra de tecnologias extravagantes!

Por esse motivo, a não-regulamentação estatal do mercado financeiro não é paradoxal ao clima de militarização da segurança, mas condição para que ela se instale...

Quanto mais mercado, menos democracia, e quanto menos democracia, mais militarização das forças policiais...

O emprego de forças militares atende a uma demanda das classes dirigentes, quando o esforço policial-militarizado não mais consegue conter a violência urbana dentro dos limites aceitos pelos ricos, ou seja, quando a pandemia de violência ameaça a pax do dinheiro...


Então, a escolha é não combater a desigualdade e suas causas, mas sim aprofundar essa desigualdade com e pelo emprego de mais violência estatal...

O ciclo se fecha: Quanto mais desigual, mas violência, e quanto mais violência, mais desigualdade!

Essas "escolhas" se irradiam por todas as instituições, corroendo o tecido político e  o tecido social convencionais, onde as formas de representatividade comuns são trocadas por sistemas burocráticos desvinculados dessas sociedades, como é o nosso caso com o judiciário e o lawfare...

A insegurança institucional é paralela a insegurança urbana, e ambas justificam "soluções de exceção", onde se fortalecem o judiciário e forças policiais e militares...

Por fim, tudo isso não seria possível sem um complexo sistema de manipulação da informação, que está representado nas plataformas de mídia comerciais-empresariais...

O uso indiscriminado da palavra "crise", a criação de um senso permanente de insegurança, o bombardeio com imagens de dramas e crimes são os ingredientes para a disseminação do discurso que justifica o uso da violência estatal contra a violência urbana...

Nesse ínterim, o Estado abandona o monopólio do uso da força estatal (legal e moralmente desejável) e passa a disputar a hegemonia do uso da violência...


Não vejo saída fácil...e lamento todos os dias ter feito concurso para essa área de segurança pública!

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Palpites para um perspectiva histórica...

É muito difícil fazer análises ou expressar opiniões estando dentro do contexto a ser analisado...

Via de regra, a distância histórica é bem mais generosa com os agentes históricos que a efervescência da hora...

Ouvi isso ontem no filme Nixon, estrelado por Sir Anthony Hopkins, quando o ator que vivia Harry Kissinger (não sei o nome) conversa com a demissionário presidente...

Esse é o nosso problema central...Não conseguimos determinar uma perspectiva histórica correta e ampla o suficiente para agirmos na direção correta, ou pelo menos, tentarmos agir...

Na verdade, olhando a História daquilo que chamamos de Humanidade, desde que houve o ajuntamento mais ou menos estável de indivíduos naquilo que costumamos chamar de "sociedades", e desde que dentro desses grupos foi criada alguma noção de hierarquia social, determinando indivíduos mais ou menos empoderados dentro desses grupos sociais, criou-se também a tentativa de impedir que os menos empoderados pudessem entender os fatos em suas formas encadeadas e como efeito, sua capacidade de influir no encadeamento desses fatos e suas mudanças (ou no desejo de mudá-los)...

Claro que os níveis de complexidades, e maiores ou menores índices de interações determinavam as maiores ou menores sofisticações desses instrumentos ideológicos de dominação...

Antes, talvez, a hierarquia de poder estivesse estruturada em percepções de cognição sumária ou de caráter mais reflexivo (intuitivos), que não à toa criaram a noção de um mundo metafísico, noção essa que passou a dominar (explicar) os eventos físicos (religiões), onde a alguns indivíduos coube a tarefa de "interpretar" essas manifestações em nome daquelas coletividades...

Resumindo e de maneira bem pueril: Era uma lógica para desconstrução da lógica...ou a Razão da Irracionalidade...

Desde então, passamos a permanente luta para restaurar a racionalidade da Razão...


Apesar da nossa auto-indulgente auto-referência sobre o nosso avançado estágio de "civilização e tecnologia", não estamos muito longe daqueles coletivos "primitivos", no que tange a nossa incapacidade de "enxergarmos o todo"...

É disso que trataremos nesses palpites...


1- O tabuleiro da geopolítica e a divisão internacional de riquezas.

Vamos tratar das coisas após a prevalência do capitalismo como sistema mundializado de controle da produção de bens e serviços e acumulação/concentração de riquezas...

Não faz muito sentido tratar "do antes do capitalismo", ainda que alguns defendam a ideia de que o Império Romano, e talvez outras aventuras pan-geopolíticas de outros Estados possam se enquadrar nessa narrativa...eu tendo a concordar com essa ideia...

De fato, naquelas sociedades "globais" também havia os mesmos ingredientes ideológicos de dominação, expressos no "dividir e reinar" ou no "pão e circo" dos romanos, ou na construção de enormes símbolos de poder, como as pirâmides do Egito, ou o próprio processo de internacionalização da Igreja Católica, naquilo que poderia ser considerada a primeira "empresa global"...Todas as estruturas sociais de dominação estavam ali...

Antes de tudo, no entanto, é preciso alertar para o que chamamos de "mundo", ou seja, cada era reservava para essa categoria uma configuração específica aos limites de compreensão da realidade física disponível aos agentes históricos...

O "mundo" medieval, portanto, tinha uma representação simbólica bem distante do real (o mundo era "menor"), mas não deixava de refletir a mesma noção universalizante pretendida pelos dominadores (ou empoderados, as elites de então)...

Tais assertivas podem nos levar a conclusão de que, de tempos em tempos, grupos de indivíduos (sociedades e suas formas de organização social) tentaram expandir os limites de sua dominação para além dos marcos daquelas coletividades, apagando a ideia errada de que globalização é um fenômeno exclusivamente capitalista...as causas sempre foram muitas, desde o esgotamento de recursos disponíveis até a expansão como única resposta ao assédio inimigo...

Mas esse debate não cabe aqui...

O certo é que apenas durante todo o processo de acumulação capitalista, o mundo experimentou tal velocidade e profundidade na conexão de formas de interação baseadas em dominação e hierarquia...

A sabedora popular nos ensina que é impossível trocar o pneu furado de um carro durante seu movimento...

Essa é a ideia central, ou o eixo seminal do capitalismo: Ele é capaz de substituir "seus pneus durante o movimento"...

E como isso é possível?

Imagine o capitalismo como um grande veículo, onde as elites vão no compartimento mais confortável, onde há todos os luxos e mimos, e as setores médios são os executores da navegação (as burocracias estatais e os sistemas chamados representativos), mas que a direção é controlada remotamente por essas elites...

Para mover esse grande veículo, podemos imaginar que aos mais pobres é dada a tarefa de empurrar o veículo, e se quiserem uma imagem mais dramática, são os mais pobres que "são consumidos" como combustível nas caldeiras ou câmaras de combustão desse veículo...

Quando há um pneu furado, parte desses pobres, e em alguns casos, junto com os setores médios são deslocados para suportar o peso desse pneu a ser trocado...

E assim mantêm o deslocamento do "veículo", até que outro pneu seja arranjado para a troca...

Só que a chegada do estepe nem sempre é rápida ou nem sempre há estepes disponíveis...e isso depende em que "estrada" se move esse "veículo" ou qual é a "marca e o modelo", na verdade representações da posição relativadas nações no tabuleiro geopolítico mundial...

Nas nações mais ricas e do centro do capital, a troca geralmente é mais rápida, enquanto nas nações mais pobres, às vezes as quatro rodas se movimentam nos "ombros dos setores mais pobres", pois não há previsão de pneus (estepes) em disponibilidade, e não raro todos esses estepes estão reservados para futuras trocas nos veículos-nações mais ricas...

Essa é um historinha boba para ilustrar aquilo que os liberais um dia chamaram de distribuição internacional do trabalho e das nações...

Há outras explicações igualmente idiotas, mas que nem por isso deixaram de causar estragos na percepção e atuação dos povos frente a desigualdade a que foram historicamente submetidas, como:

- determinismo geográficos, que nos dizia que era o clima ou a a nossa meridionalidade que nos impunha nosso sub-desenvolvimentismo ou;
- determinismo biológico-étnico, que nos dizia que nossa indolência era fruto de nossa "mistura racial" ou;
- determinismo histórico, esse mais em voga até recentemente, que prega que nossa "colonização portuguesa", nossa condição de destino para condenados e etc., era nossa maldição...


Todas as construções ideológicas para impor a mesma lógica de sempre, e igualmente fatalista: Há países que "nasceram" para a riqueza e prosperidade e outros para a "pobreza" ou para a riqueza a serviço da prosperidade dos "desenvolvidos"...

Não vamos dissecar aqui (nem sabemos como) as possibilidades, causas e efeitos que levam nações a prosperidade e outras a indigência em vários níveis...Sim, mesmo dentro as nações centrais e as periféricas as diferenças são enormes, e aqui reside outro "truque", isto é, "vender" tudo como blocos homogêneos...

E assim, antes que possamos reduzir as diferenças entre cada grupo ou inter-nações, vamos agindo em blocos que, por sua heterogeneidades, jamais conciliam estratégias eficazes de superação da dominação (o bom e velho dividir para reinar)...

Não faz sentido algum, embora "desfrutemos" da pobreza, compararmos Brasil e Burundi, ou Argentina e Argélia, e se há uma urgência em combater o inimigo comum (o centro do capital) para todos os pobres, é preciso entender que cada país pobre demandará antes uma abordagem de suas próprias desigualdades internas antes, com demandas e estratégias adequadas a cada caso histórico...
Nem entre os pobres de um mesmo país podemos dizer que há um todo compacto, ainda que a causa da desigualdade seja parecida!

Nem os nossos mais brilhantes intelectuais da esquerda escapam desse truque, e partem para uma resposta "internacionalizada" antes do amadurecimento das questões nacionais, muitas vezes confundida (espertamente) com xenofobia...ou populismo!

Um trabalho exemplar sobre esse tema está em Zizeck (Slavoj) na questão da imigração e o mercado da imigração, concentrado no fluxo África-Oriente Médio-Europa...

Resumindo novamente, Zizeck denuncia que o apelo "internacionalista-humanitário" das esquerdas europeias e mundiais para acolhimento desses enormes contingentes submerge a questão primordial: por que tanta gente quer imigrar? e acaba por alimentar um mercado político-financeiro gigantesco: o mercado de gente! apenas por medo de enfrentar a questão ideológica (o truque) em uma perspetiva mais ampla que é o direito das nações de decidirem quem e o quê passará pelas suas fronteiras...e claro, o que faz um pobre de um país pobre querer ser pobre (e ainda que cruelmente discriminado) no país que ajuda como causa da pobreza de sua terra natal!

Não à toa, a onda de desregulamentação do mercado de gente coincide com outras ideias "desregulamentantes", como dinheiro, bens, serviços, armas, drogas, etc..

Outro debate para depois...

Então, a primeira etapa de nossa conversa se conclui...Para manter você onde está, sob dominação, garantindo o movimento do "veículo mesmo sem os pneus" é preciso naturalizar e internalizar a ideia de que as coisas são mesmo assim ao redor do mundo e que alguns países conseguiram prosperar e outros não...

Mas isso é um fato, não? Claro, mas o "truque" é fazer você acreditar que essas condições (prósperas para uns e adversas para outros tantos) sempre ficarão assim...

Isso nos leva ao nosso próximo tópico:

2- O Brasil dividido entre buarquianos (Sérgio Buarque de Hollanda) e jessezistas (Jessé de Souza)!

De todos os nossos entraves intelectuais, de todas nossas hesitações, sejam os que antecederam os movimentos de independência, sejam os embates nos grupos abolicionistas, republicanos, passando pelos positivistas, tenentistas com ápice e consagração da era Vargas (e todas suas contradições, é claro!), desembocando nos estertores do golpe cívico-militar de 64, a divisão entre reformistas e revolucionários até os dias atuais, jamais chegamos a tamanha riqueza de possibilidades de compreensão e superação de nossa atávica subserviência ideológica e intelectual aos donos do capital...

Você pode estar me chamando de louco, e não sem certa razão...

Porém eu chamo a atenção para que "nunca antes na História desse país" os contornos da criação de um "pensamento nacional" estivessem tão claros, apesar da (falsa) impressão de que estamos perdidos...

Um jeito interessante de auditar nosso atual estágio é considerar o nível de força e recursos utilizados pelos donos do capital para aumentar nossa confusão, e que realmente esses esforços parecem surtir efeitos, por outro lado esse empenho revela o quão estão temerosos de que prossigamos lutando e descobrindo os "truques"....


A atual situação brasileira não é (apenas) fruto das venturas e desventuras do arranjo lulo-dilmista pós 2002...

Apesar da (auto)referência elogiosa de nós petistas, como se tudo se desse por "nossa causa", o fato é que o golpe de 2016 é só um evento a mais nessa estrutura de eventos que se desenha desde que Vargas tentou, por vias oblíquas, inserir esse país em uma posição relativa mais vantajosa no tabuleiro internacional...

É certo que as contradições de natureza interna do movimento varguista (assim como de cada líder "nacionalista") impediram sua realização, tanto como a intensa reação dos movimentos anti-nacionais...

Então, se Buarque de Hollanda falha com sua tentativa de explicação do "ethos nacional" através de uma simbiose de determinismo histórico-antropológica ("maldição ibérica na fragilidade das relações formais", "patrimonialismo importado e internalizado", e "a tradição portuguesa do cordialismo como mediação de conflitos"), também falha a seu lado o Jessé de Souza, quando abandona elementos importantes dessa contextualização internacionalizada de Hollanda para particularizar toda nossa indigência intelectual e submissão históricas aos centros capitalistas, apenas para ressaltar o seu viés de que a causa principal de nossos problemas seja resultado de decisões políticas de nossas elites e sua clássica opção pelo "agenciamento desnacionalizante de commodities" a disputar espaços como protagonistas...

Não é novidade para ninguém que a posição de vanguarda portuguesa como ponta-de-lança da internacionalização do Século XVI em diante, junto com a Espanha, sofreu uma inflexão decisiva com o fracasso do Marquês de Pombal em sua tentativa de laicizar o Estado português, para conferir-lhe uma dinâmica distante do conservadorismo paralisante e parasitante da Igreja Católica, e não por coincidência, estavam ali, na Espanha e Portugal, o epicentro de um movimento conservador sanguinário chamado Inquisição...

Ali sepultou-se qualquer chance de Portugal deixar de ser um país de terceira grandeza, condenado até hoje a ser um prestador de serviços (agora, turismo), desindustrializado e pobre...

Talvez a primeira estocada inglesa tenha sido dada com a fuga da Corte para o Brasil...Sabemos hoje que as forças napoleônicas que ocuparam Portugal chegaram cambaleantes e famintas, após os esforços de domínio napoleônico na Europa...

Bastava alguma resistência...ideia que foi devidamente "sequestrada" pelos ingleses, que passaram assim a ser os fiadores da soberania portuguesa...e depois, da brasileira...

Desprezar esses componentes na formação do "ethos brasileiro" e todas as "deformações" das nossas instituições e seu funcionamento, que serviram como luva a colocação do Brasil como potência impotente nos tempos da modernidade e pós-modernidade, é uma arrogância tola que só se explica porque Jessé de Souza se apresenta como um intelectual tanto como "pragmático", como que inimigo dos paradigmas que quer "superar"...

Para demarcar esse campo, ele precisa dessa postura (tola)...

Então, nossos problemas não são apenas resultado de escolhas políticas ruins de nossa elite e do nosso povo, mas TAMBÉM por causa delas, mas principalmente porque tais "escolhas" (que nem sempre são escolhas, outro erro comum nas análises) foram fortemente influenciadas por forças e eventos os quais não estavam ao nosso alcance, ou sob nosso raio de influência...

Não é à toa que chamamos nossas investigações policiais até hoje de Inquéritos Policiais...isso não é um acidente...!

Nosso estamento normativo não foi apenas um acerto entre nossas elites, mas antes um arranjo para que nossas elites se parecessem com o que são...

A "coincidência" entre termos um legado das Ordenações Manoelinas ainda vivo em nossas instituições policiais, e o fato delas (as polícias)ainda agirem com se em 1808 (ano de sua criação) estivessem é irmão gêmeo da influência dos EUA na criação dos limites (ou falta de) constitucionais da atuação do MP e do Judiciário desde 1988, que chegou ao cume com a sujomorização da nossa estrutura judicial, via Departamento de Estado dos EUA...


A tragédia de sua História não é sua repetição primeira, mas o fato de que a verdade histórica só é ratificada pelo próprio caminhar histórico...

Olhemos o Haiti (não é aqui)...

Observado rapidamente o ânimo revolucionário haitiano do Século XIX, sabemos que ali se deu a primeira experiência libertária genuinamente negra, somando a abolição com movimento de separação da metrópole, o que não garantiu àquele pequeno país insular centro-americano uma posição melhor que a nossa, ao contrário...

Tais e quais os países africanos como Angola, ou África do Sul...


Entender tais nuanças é crucial para criarmos o "nosso pensamento revolucionário", considerando que há componentes "nacionais" determinantes (mas nunca deterministas), assim como um conjunto de forças e interesses internacionais que incidirão sobre nossas decisões e a partir delas...

Quem entendeu isso, como os ingleses, autores intelectuais do nosso genocídio paraguaio, consegue ao mesmo tempo impedir os limites de uma solidariedade regional, ao mesmo tempo que insufla ódios nacionais, que a bem da verdade, são verdadeiros, de certo modo e em algum tempo...

Um exemplo: O caso da Bolívia e o preço do gás natural deles, por exemplo...Ou o caso do embargo da venda dos aviões Tucano à Venezuela por empresa estadunidense...apesar do discurso bolivariano, os venezuelanos fizeram suas "contas" e decidiram resguardar futuros interesses, acatando a ordem de Washington...

É mais ou menos o falso dilema quando enfrentamos a questão dos imigrantes...

Não se trata de ser contra ou a favor ou fluxo de gente, mas saber antes quem se alimenta e se aproveita de tal fluxo...

Não há de se debater contra ou  a favor do aumento do preço do gás pelos bolivianos, em prejuízo aos nossos interesses (nacionais), mas sim questionarmos para impedir que o problema chegue a tal (falso) impasse...

Assim nunca sabemos ao certo quando devemos abrir mão da "nacionalidade" para criarmos coesão regional ou quando devemos impor nossa "nacionalidade" para fortalecer essa mesma coesão...

Apesar do que nos é dito pela mídia comercial, tais premissas não se excluem, ao contrário, devem se completar...

E o que isso tem a ver com Lula, sua iminente prisão e nossa aparente imobilidade ?


3- Rosa de Luxemburgo e os gradualistas.

Ontem eu li um comentário do Professor da UnB, o Dr Luis Felipe Miguel, que exortava a compreensão de que se é preciso resistir ao golpe, as rupturas às quais conclamamos parecem uma utopia distante, na medida que Luxemburgo nos ensina que tais rupturas na História acontecem não como instrumento da luta de classes, mas apesar delas, ou nas palavras do ilustre professor, como "alheias a elas"...

Isso explica, é verdade, o teor de incapacidade dos movimentos políticos de dirigirem as condições históricas até esses momentos determinantes (revoluções), mas eu penso e argumento que o uso dessa premissa de forma, digamos, desonesta, no sentido de demarcar uma posição que os coloca como "pragmáticos responsáveis", no que eu prefiro chamar de gradualistas, que são reformistas que esperam a revolução acontecer enquanto reformam o capitalismo para uma "distribuição mais justa" de riquezas...

O resultado disso talvez seja melhor explicado nos wellfare states...

Miguel chama os que pretendem construir argumentos distintos da lógica pobre entre reformistas e revolucionários de "sonhadores" ou "loucos", "radicais estereis"...

Já ouvimos isso antes...

Ele tem parte de razão, porque como já dissemos, a História só se comprova por ela mesma, então, loucura revolucionária é aquela que não triunfa...

Só que esse vício (que eu chamo de corrupção intelectual teleológica) não explica alguns problemas:

a) É verdade que os movimentos das massas de diversos países que experimentaram revoluções, como Cuba, Coreia, Vietnam, URSS, China, etc., não foram (apenas) resultado da ação revolucionária exclusivo de uma classe ou grupo específico, apesar de que depois de deflagrados tais movimentos, as revoluções de cada país e seus arranjos pós-revolucionários obedeceram a uma lógica intrinsecamente ligada a natureza das classes que passaram a dirigir tais movimentos (ou as que renunciaram a essa tarefa)...O triunfo de Che (Guevara) e sua morte na Bolívia talvez sejam os exemplos mais crueis dessa passagem...

b) O nível de enfrentamento e a qualidade das intervenções externas e internas de contra-revolução determinaram também o comportamento dessas classes dirigentes e o maior ou menos sucesso relativo desses movimentos em relação ao que se propunham, assim, o Haiti foi massacrado e condenado a ser...o Haiti, enquanto Cuba teve sucesso relativo em vários campos, a URSS chegou ao ponto de rivalizar com os EUA e seus sócios, China manteve-se a parte, mas como uma parte que poderia acabar com o resto todo, e outros foram por outros caminhos;

c) Já no campo das reformas e ampliações de empoderamento de classes em países que passaram pela lógica da reforma via wellfare state, as estruturas de desigualdade continuam intactas, apesar de aparentemente mais amenas.

A inclusão pelo consumo tão criticada aqui, e verdadeiramente deve ser criticada, não foi diferente na Europa ou nos EUA.

Lá como aqui não houve aumento de poder político dessas classes, nem alteração das estruturas de desigualdade...

O que nos difere da Europa e dos EUA é escala econômica desses ajustes e suas repercussões na vida social...

Se houvesse uma ampliação de consciência cidadã (ou solidariedade política via esquerda) na Europa os nos EUA, os enormes contingentes médios e trabalhadores não reagiriam de forma tão reacionária e em alguns casos, pela ótica do fascismo, quando têm seu conforto econômico ameaçados pelo girar das cirandas financistas e seus efeitos assimétricos pelo globo, mas que não poupam ninguém, sejam em Montparnasse, sejam no Jacarezinho...

Sim, se o "fracasso" da inclusão pelo consumo deve ser debitado ao PT e seus governos de coalizão, o que dizer de Trump e Macron como resposta popular à crise nos países onde as classes inferiores estariam mais "preparadas" para influírem nos seus destinos?

Como explicar que é justamente o país europeu com menor grau de "inclusão" (Portugal) tenha apontado a saída?

É  vício teleológico da esquerda e seus pensantes...

Praticam um economicismo transgênero, de viés invertido, uma sub-noção da política criando uma sub-categoria local para explicar nossa aparente imobilidade...

É esse cacoete que descamba para escrotidão conceitual que faz com que milhares se amontoem em frente a um tribunal esperando justiça quando ali se tratava de consumar uma execução...

Como se quisessem apresentar embargos para definirem o lado que cairá a cabeça depois de decepada...

O reú Lula só resta cumprir a última parte de seu acordo...

Lá em 2006, ou antes, em 2002, as bases do acordo que celebrou com a elites apresenta sua última cláusula...

Quando José Dirceu, e nervo central de seu governo foi preso e esquartejado, junto com outros do quilate de José Genoíno (esse aqui um caso especialíssimo, porque paradoxalmente, pela sua história, era um dos artífices da aproximação indispensável com os militares), Lula tinha a opção de alterar esse pacto, que ali começava a se romper...

Preferiu a manutenção precária da precária institucionalidade...

Novamente a ilusão de mudança gradual, esquecendo-se da escala e da posição relativa:

- Escala porque capitalismo periférico não se reforma nunca, porque somos ao mesmo tempo, compradores de moeda e déficits dos centros emissores de moedas-padrão de trocas, e de outro lado, somos fronteiras de estabilização dos fluxos de contra-fluxos de capitais, ou centros de reciclagem de capital...

Ou de forma mais rasa: Capitalismo de periferia só se reforma para continuar de periferia...

A China livrou-se principalmente por causa de três fatores cruciais: População gigantesca e autoritarismo político com acervo nuclear...apesar de que eu considere que lá só temos um capitalismo planificado de Estado...

O que não é pouca coisa...Os EUA que os digam...

Sobra lá o fator capital demográfico, que talvez tenha faltado a URSS...

Voltando ao assunto Brasil...


Lula agora chora o leite derramado, como toda esquerda...

Como rebelar-se contra o resultado do jogo que você aceitou participar?

E o pior, como aceitar jogar um jogo onde o juiz anularia cada gol feito pelo seu time, que já entrou em campo com placar adverso de 457 a 0?

A Lula restam duas alternativas:

Ou incendiar o país com seu enorme capital político, usando seu resto de liberdade para construir comitês populares contra o golpe de 2016, boicotando a eleição de 2018, ainda que ele esteja liberado para concorrer ou;

Ou ir como cordeiro para o abate, a cadeia...adiando assim em 30 ou 40 anos (isso é um chute) qualquer chance de mudança real...


Ficaremos sem petróleo, sem submarino movido a energia atômica (uma bomba então, nem pensar!!!), sem marco regulamentar para a mídia (meus zeus, a maior rede de comunicação da Inglaterra é ESTATAL!!!!), sem controle do judiciário e das polícias, etc...

A  distopia está na mesa...sirvam-se...


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O nó da questão...

Qualquer eleição depois da deposição ilegal da Presidenta eleita Dilma Roussef é fraude...

Com ou sem Lula...

Odeio roberto jefferson por vários motivos, mas vou usar a frase dele com um adendo:

Não se enterrará Lula e o PT na campanha...seremos enterrados no exercício desse mandato, que nasce de um golpe...

Concordar com as eleições de 2018, sem a devida reparação do mandato de Dilma Roussef, é como aceitar a gravidez resultado de uma violência sexual...

Nossa Democracia foi estuprada e está grávida de seus algozes...

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Pensamento tolo...

Às vezes, para não perdermos tudo, temos que agir como se não tivéssemos nada a perder...

O Baile...

Há sinais quase que imperceptíveis bailando no ar, como naquela famosa cena do ótimo filme estrelado pelo agora banido Kevin Spacey (American Beauty), onde um dos protagonistas mostra a sua namorada uma gravação que fez de uma sacola plástica ao vento, antes de uma nevasca...
O garoto fala da beleza aleatória e da "eletricidade do ar"...
O filme, muito bom por sinal, tenta nos vender a ideia de que apesar das coisas terem causas e efeitos, tudo isso está suspenso pela precariedade (ou aleatoriedade) e pela inevitabilidade do fim...
Mas e enquanto não morremos?
A película propõe um seja feliz e fodam-se os outros, e não há como deixar de ver uma (auto) censura típica do diretor nas consequências da mudança de vida da personagem central (Lester Burnham, vivido por Spacey), que arrasta tudo ao seu redor, até o interesse juvenil e sexualmente precoce (e massificado ou banalizado) de uma amiga de sua filha...
É essa a armadilha que vivemos hoje...
E dela não escapou nem o nosso grande líder, pelo menos o único grande líder que tive a sorte de ser contemporâneo (ah, teve o Brizola também)...
Lula está preso, e faz tempo...
Ficou preso no processo chamado ação 470, e de lá nunca mais saiu...
Achou que cabia ao se papel de estadista respeitar um judiciário que não respeita ninguém (talvez nem a ele mesmo, judiciário)...
Entregou Zé Dirceu às hienas, imaginando que as satisfaria...não foi suficiente, e nunca será...
Tudo bem, errar é humano, e apesar das "provas em contrário", Lula é humano...

Vamos aos dias atuais, depois da nossa primavera de 2013, que alguns ainda insistem (santo zeus) em creditar (ou debitar) na conta dos insucessos do PT ou de Dilma...(não posso deixar de rir)...
O troço é quase infantil, mas os "complexistas" buscam o cabelo no ovo...

Tudo para ignorar que são os fluxos e contra-fluxos do capital, construídos a base de uma gigantesca assimetria (chamada antes de divisão internacional do trabalho, mas que na verdade, era a divisão internacional da riqueza gerada pelo trabalho) que anda farejando a presa, mais uma vez...

Depois de muito insistirem na tese da polarização (morderam a isca), entenderam que a polarização como apresentada só tinha a intenção de equiparar um discurso de ódio calculado (os bolsopatas) com o pálido esforço das forças de centro-esquerda em se reconstruírem...
Estamos dentro da armadilha...como areia movediça...
Perdemos a narrativa do golpe desde o começo...

Primeiro, quando até setores "progressistas" passaram boa parte do tempo tentando dizer que se Dilma caiu, e o PT junto, a culpa era deles, e que uma auto-crítica era necessária...

Vejam bem, auto-críticas são sempre necessárias, mas exigir tal ação em meio a um golpe é mais ou menos (ou é igual mesmo) como exigir que as vítimas de estupro evitem "más companhias" ou "roupas ousadas"...

E aí tivemos aqui (como quase em toda a chamada esquerda) uma outra falsa polêmica: 

De um lado os auto-críticos e céticos, que diziam que sem a "reforma" do PT e seus métodos a esquerda não avançaria, quando na verdade esse setor só queria aumentar a percepção do desgaste do PT (e de Lula) para angariar as migalhas de legitimidade...

De outro, os que defendem que a eleição de Lula em 2018 nos redimirá, não de nossos pecados, mas os pecados alheios (como se isso fosse possível)...

Disputam, cada lado, a categoria de relógio quebrado, ou o troféu distopia teleológica:
Uns dizem: Viu, deram o golpe, a culpa é do PT! Outros dizem: Viu, deram o golpe, mas pode ficar pior!

Depois caímos na narrativa de 2018, como se eleições encerrassem todas as nuanças da 
luta política e o conflito de classes inerente a ela...

E como escapar da "polarização", ainda que a denunciemos por "falsa"?

Nós já aceitamos a "polarização" quando sequer debatemos a possibilidade de que essa eleição seja uma farsa...E ficamos com a pior "polarização", a que só tem um "pólo"...

A direita não quer só um candidato de "centro", ela quer que a eleição em si fique no centro de seu alcance, ou seja, sem nomes para apresentar, vai atrair o candidato para esse campo...

Há terra fértil para isso...
Se nós déssemos ao trabalho de pesquisar no vasto acervo de posts e comentários das chamadas mídias progressistas, veremos que os "setores" mais "equilibrados" (que piada) reagem a qualquer debate fora dos limites do Lula 2018 como "provocação" ou "um pretexto para que os golpistas endureçam"...

Quanta tolice...quem dera que pudéssemos ter uma mera ilusão de que qualquer ato ou discurso mais inflamado pudesse precipitar algo que já não estivesse definido pelos donos do capital...(novamente dou risadas)....

O que está em curso, tanto nas mídias progressistas, como nas pocilgas como veja e que tais, é a desconstrução da campanha eleitoral como plataforma para qualquer debate mais acirrado sobre responsabilização e reversão dos efeitos do golpe, mudança dos paradigmas do judiciário e da mídia...

A diferença é que nos chamados "blogs sujos", os "selvagens" comem de garfo e faca...só isso...

Agora, lemos uma plêiade de posts com os "anciãos" do PT pregando uma saída "negociada"...
O valente e honestíssimo juiz Aragão, mesmo que em um ótimo texto, chamou para que a direita entenda que só uma saída existe, e ela atende por Lula...quando seria melhor dar anéis para poupar dedos...
Só que a História ensina que a elite não faz acordos, porque nunca aceita perder nada....e fazer acordo é ceder..
.
Eu não me oponho a acordos, mas como acordar com quem não quer dar nada em troca?
Por que um partido, um país, um presidente, uma presidenta têm a obrigação de negociar uma saída para um crime que eles forma vítimas...?

O que, raios que nos partam, Lula, PT, Dilma, e nós, esse estranho monstrengo híbrido que se chama de povo, têm para ceder? 
Onde devemos ceder mais?

Havia, desde 2002, uma tímida, pálida e inconsistente tentativa de reformar esse capitalismo periférico, esse bordel de entra e sai de dinheiro, cafetinado por juros pornográficos, alimentado pela venda de patrimônios estatais que fariam corar de vergonha as meninas da Vila Mimosa...

Não houve um abalo no oligopólio da mídia...

Sequer uma mãozinha de tinta no judiciário e nas milícias policiais estaduais e seus coronéis-governadores...Seguimos matando pretos e pobres como nunca...

Só aumentamos um pouquinho o gasto social per capita, a renda real dos mais pobres, bolamos algumas políticas públicas para resgate histórico de demandas reprimidas, colocando pretos nas salas de aulas das Universidades para assistirem aulas, e não para limpá-las, como sempre...

Abrimos as pernas para os chamados grandes eventos (outra frente da sanha da acumulação rentista), subvertendo até nossos estamentos para a "ordem global" dos jogos e seus licenciados...

Tivemos a ingenuidade de tentar aumentar a capacidade da Petrobrás, e reverter parte da renda do petróleo para a rede social de amparo...

Achamos que alguns empresários estavam satisfeitos, e descobrimos depois que mesmo largamente beneficiados com o projeto de criar empresas capitalistas dignas desse nome, com inserção mundial, os imbecis estavam bancando os golpistas...

Como a saga do escorpião e o sapo...

Então, pergunto novamente, nós vamos negociar o quê mesmo?
É o refém negociando o próprio resgate...os manuais policiais ensinam que isso não dá certo...

Será que podemos considerar uma qualidade a de "negociador" quando o negociador coloca a negociação acima de qualquer ideia de resultado diferente se resolvesse não negociar?
O golpe dentro do golpe, o sequestro dentro do sequestro...
E não adianta reclamar do Márcio, dos cadetes enfurecidos pelo proposto boicote das debutantes (famoso episódio quando o então deputado Márcio Moreira Alves conclamou as debutantes a não convidarem mais cadetes para seus bailes, o que teria "precipitado".o AI-5).
A música desse baile já estava escolhida faz tempo...