quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Rios Pontes e Overdrives - Chico Science e Nação Zumbi (Hollywood Rock)


(...) Rios pontes e overdrives/Impresisonantes esculturas de lama(...)"

Esse é o verso de uma música do insubstituível Chico Science, em seu disco de lançamento, Da Lama ao Caos.

O vídeo acima é de sua apresentação no Hollywood Rock.

Presente em quase toda a sua obra, "a cidade", suas contradições, a forte marginalização dos pobres e o avanço de um modelo de urbanização sobre a própia a urbe!

*Para quem não sabe, overdrive é o termo em inglês para viadutos.


A lama era referência estética e política, na medida que o mangue (daí o termo mangue-beat, homens caranguejos, etc), ou a natureza, se confrontava com as "necessidades civilizatórias", simbolizadas no concreto.
O termo "esculturas de lama", talvez, seja a contraposição dialética da possibilidade do concreto retornar a lama (se desmanchar), pela tragédia, pela "vingança da natureza".


Eu queria, desde o início escrever algo sobre a incrível tragédia que se abateu sobre nossos irmãos da serra.


Algo que escapasse a superficialidade e leviandade de nossa mídia tradicional, que ora apela a exploração do melodrama, ora busca culpados onde não os há, no eterno jogo de injúria e difamação que move contra seus desafetos políticos.


Logo, me veio a associação a lama de Science e a montanha de lama e pedras que arrastaram bairros e vidas na cidade de Teresa, de Pedro e na pequena suíça do primeiros imigrantes suíços da região, sua nova Fraiburg.


Como na canção do gênio pernambucano, a lama aqui também representa o estado natural maculado pela intervenção humana.


Mas como povoar cidades, sem incorrer nos riscos de que a própria cidade, na medida que avança, acabe por se devorar?


Esse questionamento foi lançado por urbanistas e jornalistas,à época do incidente com o Metrô de SP, a linha amarela sobre o Rio Pinheiros.


Desde então esses temas me incomodam.


Houve mesmo uma "privatização" da agenda pública dos gestores muncipais e estaduais, que submeteram a lógica dos interesses públicos (segurança, sanitarismo, educação, infra-estrutura, transporte, etc), a necessidade de patrocínio as campanhas eleitorais, cada vez mais caras e midiáticas, e por conseqüência, ao domínio das corporações privadas que subsistem dessas enormes intervenções físicas no espaço da cidade?


Tudo indica que sim!


Nossa cidade é um exemplo acabado dessa tendência: A submissão de toda a vida a conveniência do lucro imobiliário e dos mega-investimentos.
 Essa lógica acontece também na vizinha São João da Barra. Em pouco tempo, não nos será possível enxergar o que é causa, o que é efeito.

São Paulo não é diferente. Rio de Janeiro idem. Friburgo, Petrópolis e Teresópolis tampouco. Se essa cidades "afundam", só ingênuos (ou os cínicos) poderiam dizer que é obra do acaso e da coincidência mórbida.


Cada vez mais, as comunidades dessas cidades entregaram seu poder decisório sobre seu espaço a mediação de grupos particulares, com interesses ainda mais particulares. Feito isso, a parte "podre" do negócio fica a cargo do Erário das cidades.


É tentador procurar um "culpado" dessas tragédias. Há toda a sorte de "culpados", para todos os gostos e entendimentos.
Desde as alterações climáticas que concentram grandes quantidades de precipitação em curtos espaços de tempo, omissão dos governos em fiscalizar e regulamentar a ocupação do espaço público, ou em outros casos, a ação da esfera pública para favorecer a voracidade do lucro do setor imobiliário, junto com a promoção de uma agenda de obras para suprir os acordos de campanha e o desejo(na maioria das vezes legítimo)de propriedade dos moradores.



Mas, enfim, é preciso dizer que nosso destino, sempre é fruto de nossas escolhas. E todos esses fatores que citamos antes concorrem para um fato: A cidade que temos é uma decisão dos seus cidadãos!



Cidades que privilegiam o transporte privado, a invasão desmedida e não planejada de áreas de risco, que ignoram solemente qualquer plano diretor, não poderão contar com "a sorte" de evitar mortes, desabamentos, soterramentos, alagamentos, enxurradas, epidemias, etc.



Estamos sempre "Da lama ao caos, e do caos a lama".

Abaixo a letra da música do vídeo:

Rios, Pontes E Overdrives Chico Science & Nação Zumbi
Porque no rio tem pato comendo lama ?
Porque no rio tem pato comendo lama ?

Rios pontes e overdrives
Impressionantes esculturas de lama
Mangue, mangue, mangue, mangue, mangue, mangue, mangue!!!!
Rios pontes e overdrives
Impressionantes esculturas de lama
Mangue, mangue, mangue, mangue, mangue, mangue, mangue!!!!
E a lama come no mocambo e no mocambo tem molambo
E o molambo já voou, caiu lá no calçamento bem no sol do meio-dia
O carro passou por cima e o molambo ficou lá
Molambo eu, molambo tu, molambo eu, molambo tu

É macaxeira, Imbiribeira, Bom pastor, é o Ibura, Ipsep, Torreão,Casa Amarela
Boa Viagem, Genipapo, Bonifácio, Santo Amaro, Madalena, Boa Vista
Dois Irmãos, é o Cais do porto, é Caxangá, é Brasilit, Beberibe,CDU
Capibaribe, é o Sertão eu falei.

Rios pontes e overdrives
Impressionantes esculturas de lama
Mangue, mangue, mangue, mangue, mangue, mangue, mangue!!!!
Rios pontes e overdrives
Impressionantes esculturas de lama
Mangue, mangue, mangue, mangue, mangue, mangue, mangue!!!!
E a lama come no mocambo e no mocambo tem molambo
E o molambo já voou, caiu lá no calçamento bem no sol do meiodia
O carro passou por cima e o molambo ficou lá
Molambo eu, molambo tu, molambo eu, molambo tu
Rios pontes e overdrives
Impressionantes esculturas de lama
Mangue, mangue, mangue, mangue, mangue, mangue, mangue!!!!
Rios pontes e overdrives
Impressionantes esculturas de lama
Mangue, mangue, mangue, mangue, mangue, mangue, mangue!!!!
Molambo boa peça de pano pra se costurar mentira
Molambo boa peça de pano pra se costurar miséria, miséria...



http://www.vagalume.com.br/chico-science-nacao-zumbi/rios-pontes-e-overdrives.html#ixzz1AvG65u3R

7 comentários:

Paulo Victor disse...

Hoje eu sou obrigado a concordar com você em tudo. Hehehe.

E a escolha musical, foi de um senso de oportunidade muito grande. Salve a Nação Zumbi.

Abraço

douglas da mata disse...

Salve!

Essa música, Manguetown e a A Cidade estão impregnadas dessa visão política do Science sobre o tema.

Oportuna, infelimente, oportuna...

Abraço.

Anônimo disse...

Viaduto em inglês é highway ou freeway. Overdrive tem vários significados, menos viaduto.

Anônimo disse...

Dilma disse, acertadamente, que há responsabilidade dos governos federal, estadual e municipal; nunca antes na história desse país, algum presidente chamou para si a responsabilidade, nota 10 para ela e zero para todos os outros...

douglas da mata disse...

Caro comentarista,

Obrigado pela observação, mas permita-me discordar:

"Ao pé da letra", highway ou freeway são significados para auto-estrada ou estradas livres, que são logradouros(geralmente perimetrais ou anéis viários) destinados ao fluxo rápido de veículo com várias pistas, e por isso memsmo, com limites de velocidade alto. Nelas, podem estar os viadutos, mas os termos apresentados por você, não designam o que disse.


Aliás, o termo drive significa dirigir o que nos daria, junto com over(além de, sobre, acima, etc) overdrive= dirigir sobre (algo), que pode, sim, ser associado a idéia de viaduto.

Na obra de Science, essa estética da "fusão" de termos e ritmos pode tê-lo levado a criar um neologismo em inglês, se observarmos que nenhum dos sentidos literais do termo overdrive(extenuar, esgotar, fatiga; fonte: Google)pode ser cobtextualizad no verso da música, sem mudar-lhe o sentido.

O que Science fez é o que se chama licença poética.

A língua inglesa é profícua em palavras únicas para vários significados, como temos: blue= azul, ou triste, ou gênero musical.

Overdrive também é utilizado para designar um artefato que modifica o som do acorde de instrumento de corda, conhecido como guitarra.

Falar a língua é muito mais que traduzir termos "ao pé da letra". Língua não é estática, e o falar cooquial, associado o descobertas das manifestações artístico-culturais dão vida e movimento as línguas.

Mas, independentemente, dos significados exatos, o importante, na obra, e no texto que apresentamos é o debate acerca do avanço do concreto sobre "a lama", que depois vira lama, literalmente.

Um abraço, e grato pela participação.

Arthur disse...

Chico fala de várias coisas nessa letra. Na minha opinião o overdrive é o mesmo da guitarra. O que seria o "alicerce" do rock é também uma escultura de lama pra ele.

Gilberto Reis disse...

Concordo com o Douglas, overdrive é licença poética para viaduto. Gilberto Gil utilizou a palavra Connecticut, na música Pela Internet, para falar das conexões e seu controle. Em show ao vivo brinca dizendo, "I Connecticut, you cut. Please, don't cut my connection'. Overdrive são viadutos, esculturas de lama, concreto que vai se desfazer em lama. O disco é " do caos a lama".